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Moda e Design
25/02/16

Joias e verão

"Como devem ser a linguagem de nossas joias?"


Patrícia Sant´Anna

Estamos em um país em que o verão dita a elegância. Sim, mesmo nos estados mais frios, como Rio Grande do Sul e Santa Catarina, os meses de calor superam em quantidade os meses frios. Bem, porque não reverter isso a nosso favor? Os países europeus fizeram isso muito bem, a ponto de, não raro, nós acharmos que o inverno é mais elegante que o verão... será? De qualquer maneira, essa não é a nossa realidade. Somos solares, iluminados e quentes. Como devem ser a linguagem de nossas joias?

Elas devem seguir a elegância que nos é própria. Isto significa levarmos em consideração:

  1. Clima (meteorologia)
  2. Gosto (cultura) e ambiente social
  3. Recursos Principais 1 (minerais, tecnologia, logística)
  4. Recursos Principais 2 (intelectual, humano etc.)

Vamos item por item:

1. Clima

Se o calor é úmido ou seco, se ele tem rajadas de vento ou chove torrencialmente, isso deve ser levado em consideração. Há clima quente para todos os gostos no Brasil, do semiárido ao clima equatorial (úmido e muito quente), passando por lugares de climas mais amenos como o tropical de altitude das serras do sudeste e sul. Por isso, a brasileira e o brasileiro, preferem produtos resistentes a umidade e ao suor intenso, que ‘pretejam’ (oxidem) pouco ou nada. Para o uso cotidiano, não há como negar, as joias leves, mesmo quando usadas em profusão, é o que boa parte dos consumidores buscam.

2. Gosto e ambiente social

Ninguém compra uma joia (ou qualquer produto que construa a aparência – produtos de moda) por necessidade fisiológica, mas por necessidade sociocultural. Quais são as referências que nós temos mais rapidamente? Televisão! É a resposta imediata, como dizem os mais jovens... #SQN. Lógico que as informações de moda televisionadas são importantes, mas não só novelas. Cada vez mais as pessoas tem informação também via filmes e seriados internacionais. Atualmente todas as classes de consumo tem acesso à internet, o que faz com que a circulação sobre acessórios e joalheria seja muito mais rica do que a 10 anos atrás. Com especialistas – antes exclusivos para uma elite que tinha acesso a viajar e frequentar feiras – estejam conversando diretamente com o mais vasto público. Há ainda a formação de gosto local, que possui nos influenciadores de internet seu grande veículo e arena de debate. Hoje a internet está na palma da mão (mobile), logo, a informação e o acesso a adquirir joias também. Porém, nunca se esqueçam: toda essa avalanche de informação está falando de algo consumado, de algo que já está no corpo do consumidor. Como saber o que eles vão usar no futuro? Acompanhando tendências, estudando mercados, e sempre sempre sempre verificando como foi a curva de vendas da última coleção que você colocou no mercado. A curva de vendas ajuda a você traçar o gosto do cliente que a sua empresa atende. Nem sempre o que dá certo para o vizinho dará certo para você. Gaste menos tempo olhando a grama do concorrente, aprenda com ele, mas conquiste o seu espaço. Há mercado para todos.

Vivemos em um país violento, onde segurança é um dado que alarma e toca a todos. Portanto, joias chamativas são usadas em situações bem específicas, isto é, em momentos de festa. No cotidiano, quanto mais discreto melhor. A lógica de Coco Chanel e Elsa Schiaparelli é muito válida para nós brasileiros: misturar joias e bijuterias, ouro com prata, verdadeiro com falso, as vezes até na mesma peça é algo já entranhado em nossa forma de compor a aparência. Que tal ser mais ousado nas criações e subestimar menos o cliente final.

Apesar da violência, somos vaidosos, e gostamos de nos arrumarmos, ornamentarmos-nos. O gosto por pedras coloridas acontece mais no NE, SE (exceção é SP) e Norte do país. Mulheres do SP, Paraná, SC e RS preferem pedras menos chamativas em tons mais suaves. Não descarte as coloridas, apenas, pense em um mix mais clássico para essa região. RJ, SP e RS possuem relevante público de consumidores sofisticados, que ousam em comprar peças mais conceituais.

3. Recursos Principais 1

Vamos nos ater a falar de algo que sempre incomoda: a matéria-prima. Temos gemas de todas as cores e níveis de dureza. Opacas ou com brilho. Porém, temos uma subutilização e uma perda muito grande de nossa riqueza em gemas por simplesmente não cuidarmos da rede produtiva de joia desde o seu início. Pensa-se e reclamamos muito daquilo que atinge a linha de frente, o produto pronto, porém, não olhamos de maneira global, e quem sofre as consequências somos nós mesmos. Gemas lindas mal lapidadas não valem nada.

Outro grande erro nosso é não saber usar (em criação) e capitalizar sobre gemas pouco conhecidas do grande público. Ficamos a mercê de um gosto que não foi formado por nós, mas sim por outros players do mundo. Que tal colocar um topázio imperial ou uma ametista no pescoço, orelhas, dedos e/ou braços dos red carpets internacionais? Nas personagens de novela, seriados e apresentadoras de televisão? Temos uma missão didática de ensinar ao país o que são as nossas gemas. Como gostar e desejar se não conheço? É uma missão de médio prazo? Sim, mas se não começarmos isso nunca vai virar efetivamente o gosto de nosso próprio país, ou mesmo em terras internacionais. Valorizar o local é um jeito poderoso de competir globalmente.

Ponto crítico: desenvolvimento de tecnologia interna para o desenvolvimento da produção joalheira em escala. Da mineração até o Visual Merchandising de uma joalheria, em todos estes processos há desenvolvimento tecnológico envolvido. Faça aquisições de máquinas de maneira planejada, invista em treinamento de seus funcionários. Lembre-se em um país quente, os desgastes podem ser de outra ordem, inclusive humanos. Organize sua planta produtiva de maneira a todos renderem o máximo possível, por estarem em local agradável, com luz, ventilação e temperatura agradável para o trabalho.

4. Recursos Principais 2

Muita gente no ramo ‘herdou’ o negócio. Isto é, trata-se de um negócio de família. Primeira coisa: vamos profissionalizar? É importante para que não se tomem decisões por ‘achismo’. Ou ‘costume’ (‘meu pai/tio/irmão/mãe/tia fazia assim e sempre deu certo’) e sim com convicção de que está indo no caminho correto para o sucesso de todos. O problema da falta de profissionalização é algo generalizado na rede produtiva de joias (não é só nas empresas familiares). De bons lapidadores até designers realmente especializados em joias, tudo falta em nossa rede, e quando existe, não raro não pagamos o que estes profissionais merecem pagar. Será que não é o barato que sai caro? Sabe qual a maior consequência disso: esse tipo de posicionamento e falta de investimento humano nos torna menos competitivos local e globalmente. Pois enquanto estamos em processos de ‘tentativa e erro’ o mercado internacional está planejando estrategicamente o seu futuro. Vamos então melhorar isso?

Todos os envolvidos no processo criativo-produtivo das joias devem ser conscientes, informados e treinados. Não há fórmula para fazer sua empresa ser mais produtiva que as outras. Você deve ser atento, ter autocrítica, verificar possibilidades de como fazer tudo ser melhor para todos. Lógico tudo começa com um ambiente agradável para se trabalhar (física e psicologicamente), a produtividade é consequência é essa. Os mals humorados falarão que no oriente não é assim. Bem, eu tenho uma boa resposta: Não estamos no oriente,nem somos orientais. Estamos no Brasil, eles criaram um modelo para eles, que dentro dos padrões culturais deles está ‘ok’, mas esse é o modelo que queremos para nós? Acho que não. Vamos inventar o nosso modelo?

Concluindo, fazer joias no Brasil para brasileiros significa olhar com atenção para o nosso país. O verão é a mola propulsora. É quando mais saímos para as ruas, passeamos e viajamos. Nos arrumamos e tiramos férias. Trata-se do momento de maior vaidade e exposição dos brasileiros. Ao invés de ficar achando que só no invernos ‘se é elegante’, vamos abandonar essa visão colonizada e perceber o quanto somos absolutamente elegantes, sexys, coloridos e bonitos no verão. As coleções de verão devem olhar com atenção para o Brasil. País que é vasto, cheio de variações culturais, profícuo em nuances de gosto e formas de consumo. Portanto, até o tipo de experiência que desejam ter dentro das lojas, no modelo comercial, tudo pode variar, e temos que estar atentos para gerar o valor que os nossos clientes querem comprar. Enfim, não gaste tempo reclamando, gaste tempo pesquisando, aprendendo e dando soluções para a sua microrealidade, isso já ajuda imensamente a melhorar o seu entorno, afinal, você está gerando empregos, gerando riqueza, e, porque não, gerando realizações positivas para todos os envolvidos: para você, seus colaboradores, parceiros e clientes finais.

 

* Patricia Sant’Anna é fundadora e diretora de pesquisa da Tendere.


Patrícia Sant´Anna

Este espaço traz informações e debates acerca de Moda e Design diretamente ligados ao universo da joalheria e bijuteria em todas as suas manifestações. A intenção é promover o conhecimento crítico e um panorama amplo das tendências de moda e consumo aplicadas ao setor joalheiro e de bijuteria.

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